• Dr. Artur Vasconcelos

A “CIÊNCIA" DA NUTRIÇÃOO QUE HÁ DE ERRADO COM ELA?

Atualizado: Mai 24



Se acreditar na ciência virou religião, ser um “ateu científico” pode te salvar. Pelo menos quando o assunto é nutrição, que historicamente gosta de insistir naquilo que dá errado.


Não estou aqui para propor um retorno aos tempos de fogueiras e caldeirões. Mas sim uma maior reflexão sobre a credibilidade do que colocamos no papel. Ele é espelho das nossas falhas como humanos, e não se iluda, aceita tudo.



Medicina baseada em evidências é fundamental para a replicabilidade do cuidado em saúde, mas tem suas limitações.


Entender um pouco de metodologia científica e exercer um “ceticismo mente-aberta” pode ser o caminho mais sensato para o profissional se atualizar e oferecer o melhor serviço possível para seus pacientes e clientes.


A idéia desse artigo veio depois de escutar o episódio #143 do “The Peter Attia Drive”, onde o médico anfitrião conversa com o também médico, e polêmico, John Ioannidis, da Universidade de Stanford, sobre as falhas da pesquisa médica, e como melhorá-la. Recomendo as quase duas horas para quem tem bom ouvido para a língua inglesa.



VIÉS ECONÔMICO


Os grandes produtores de alimentos, centralizadores de praticamente todos os recursos agrícolas (sementes, defensivos e terra), determinam como nós e nossos animais nos alimentamos. Não me espanta que sejam os maiores patrocinadores de estudos em nutrição. É seu marketing mais importante.


Infelizmente, isso não fica claro na maioria dos artigos. Não espere que produzam ou autorizem a publicação de informações que resultem em perdas financeiras. Existe um lobby importante dentro dos periódicos e associações de classe, que são apoiadas por essas empresas, em anúncios ou eventos.



VIÉS IDEOLÓGICO


Um autor que gosto muito, o nutricionista e educador físico Danilo Balu, usa com frequência a citação: “nutrição é um sentimento, não uma ciência”. Talvez seja porque é um campo de estudos relativamente novo… mas nem sempre vemos essa resistência em outras áreas de interesse recente, como a genética.


Todos temos nossos vieses. Ter consciência deles é mais importante que nossa tendência a mudar de idéia. De fato, é necessário um indivíduo ou motivo muito especial (ou incômodo) para alguém repensar toda uma carreira acadêmica. Mas toda essa “paixão” pode atrapalhar a evolução do saber.




ESTUDOS OBSERVACIONAIS x EXPERIMENTAIS


É muito mais fácil, e barato, colher dados de uma população, e propor hipóteses, do que montar e executar experimentos randomizados. Estudos observacionais, muito mais numerosos, provam relação, mas dificilmente identificam causas. Frequentemente são citados como evidência robusta, o que não são.


Mesmo experimentos bem feitos também tem seus poréns. A idéia de eliminar fatores de confusão é importante para descobrir o peso de uma medida, mas nunca vai conseguir refletir a realidade. Na prática, as intervenções sempre vão co-existir com inúmeras variáveis não isoladas. A vida real não é um ensaio clínico controlado!


EFICÁCIA x EFICIÊNCIA


Comprovar que uma intervenção funciona experimentalmente, especialmente quando avaliada se há repetibilidade em outros estudos (objetivo de uma revisão), a torna algo eficaz. Eficácia tem a ver com o resultado final, o objetivo.


No entanto isso não prova sua eficiência. Para isso, a intervenção deve ser aplicável. É sobre “colocar a mão na massa”.


Por exemplo: restrição calórica pode ser eficaz para emagrecer beagles em canis de universidades… mas seria eficiente para um cão que convive na intimidade com seu tutor, participando da rotina alimentar da família?


MATEMÁTICA x FISIOLOGIA


Nutrição não é uma ciência exata. O forma como os organismos se relacionam com os alimentos é algo tão sofisticado, e nosso conhecimento tão superficial, que dá para entender nosso fascínio. Hormônios, microbioma, genética… tudo se embola!


O corpo não é uma fornalha para sobrevalorizarmos a idéia de “caloria”. Contabilizá-las, em consumo e gasto, é praticamente impossível.


Extrapolar mecanismos celulares para sistemas complexos, explicando-se através mapas metabólicos postulados em livros de bioquímica, é de um reducionismo científico que só nos afasta de um melhor entendimento desses processos.


OBJETO DE ESTUDO


Há quem questione se nós não deveríamos dificultar a pesquisa, ou até diminuir os gastos com ela, tamanha a quantidade de artigos sem qualidade. Não acredito que seja esse o caminho, mas um maior rigor sobre o objeto de estudo é algo do qual precisamos urgentemente.


Realmente precisamos “provar” que cães deveriam comer carne, vísceras e ossos crus? Isso é o natural, fazer esse questionamento seria o que chamamos de inversão de ônus de prova.


Nada em nutrição faz sentido se não é avaliado sobre uma ótica evolutiva. Bom senso, atenção e o crivo do tempo são os melhores balizadores de qualquer intervenção na dieta de um indivíduo.



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