• Dr. Artur Vasconcelos

PENSE DUAS VEZES ANTES DE USAR ESSAS VACINAS

Atualizado: Abr 29




Mesmo sendo fantásticas ferramentas para promoção de saúde, não é raro depositarmos nelas uma “responsabilidade” indevida. A famosa mistura de emoção com falta de razão, que nunca sai legal.


Como todo produto biológico não inócuo, tem seus benefícios e riscos. Seu uso deve ser baseado por evidências científicas robustas, e não por insegurança ou simples motivação econômica.


Aconselho a todos os tutores de cães que se familiarizem com o assunto, pelo menos uma literatura básica. Saiba o porquê de cada vacina, como funcionam, quanto dura a imunidade que conferem.


Nem toda vacina é igual, muito pelo contrário. Patógenos diferentes resultam em desafios diferentes, em lugares diferentes. Os objetivos finais de qualquer imunização são os mais diversos possíveis.


Umas protegem da infecção, outras dos sinais clínicos (ou da gravidade deles). Podem conferir imunidade por poucos meses, ou durar uma vida inteira. Algumas devem ser aplicadas somente em indivíduos específicos. Mas para uma “imunidade de rebanho”, uma boa parcela da população precisa tomar uma agulhada.


Veja abaixo as vacinas que se deve pensar duas vezes antes de usá-las.


GIÁRDIA


O Brasil é um dos poucos países onde ainda se vende a vacina contra giardíase. E não é porque temos uma incidência diferente da doença quando comparados com outros países. Mas sim porque não questionamos a existência desse produto e ainda somos um mercado extremamente lucrativo para quem a fabrica.


Segundo as diretrizes da WSAVA, a vacina contra essa doença é contra-indicada, por ausência de evidências que demonstrem que ela funciona. Infelizmente, desenvolver vacinas eficazes contra protozoários (pense em malária e doença de chagas em humanos) não é tarefa fácil!


TRAQUEOBRONQUITE INFECCIOSA CANINA


A vacina contra Bordetella e Parainfluenza canina só é indicada para pacientes sob auto risco de infecção, que frequentam hotéis e creches para cães. É doença benigna, que tende a melhorar sozinha em pouco tempo, mesmo sem tratamento. Cães pouco desafiados não devem ser vacinados com esse produto, que não impede a doença, mas apenas abranda os sinais clínicos.


A melhor apresentação dessa vacina é nasal ou oral, porque o que determina a proteção é a imunidade de mucosa. Tenha em mente que ela tem curta duração (poucos meses) e deve ser utilizada imediatamente antes da época de maior transmissibilidade (inverno).


V8 e V10 (múltiplas)

Quanto mais melhor, não? Com vacinas, esse pensamento é incorreto. Com a chegada de um produto V7 no mercado brasileiro, o uso das V8 e V10 é injustificado. Explico o porquê.


A diferença entre a V8 e a V7 é a presença do componente contra o coronavírus entérico canino, doença que nunca teve sua importância elucidada na espécie, sendo contraindicada a sua vacinação pela WSAVA.


A V10, além do coronavírus, acrescenta bacterinas contra dois sorovares adicionais de Leptospirose, os quais ainda não se comprovou a importância epidemiológica no Brasil. Vale lembrar que vacinas contra essa doença, de forma geral, não impedem a infecção e não há proteção cruzada entre os sorovares. Ou seja, conferem baixa proteção e tem pouca utilidade em cães.


LEISHMANIOSE


A vacina contra o protozoário que causa a leishmaniose visceral em cães só deve ser considerada em áreas onde a doença é endêmica, para pacientes soronegativos. Assim temos o primeiro problema: em cidades, como Belo Horizonte-MG, mais de um terço dos cães já pode ter sido infectado.


Assim como outras doenças que dependem de uma imunidade celular (e não humoral, anticorpos), a proteção conferida pela vacina não é duradoura, e não impede a infecção. Seu objetivo é reduzir a gravidade da doença em situação de contato com o protozoário. Ou seja, não deve ser utilizada no lugar da triagem sorológica periódica.


LEMBRETE


Mais importante que seguir “protocolos” vacinais, é considerar a individualidade do paciente, acessando seu histórico de saúde, estilo de vida e desafio geográfico.


De forma geral, as vacinas consideradas como essenciais para os cães (cinomose, hepatite, parvovirose e raiva) conferem imunidade duradoura, muito superior a um ano, que é o intervalo atualmente recomendado para a revacinação pela maioria dos colegas.


Uma coisa é muito certa: não é só com vacina que se garante saúde. O sistema imunológico é de uma beleza tão complexa que é absolutamente injusto resumi-lo ao que está dentro de um frasco.


Vamos repensar o uso adequado dessa importante ferramenta de promoção de saúde?


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