• Dr. Artur Vasconcelos

QUEM TEM MEDO DE BACTÉRIA?




Não é infrequente ser questionado sobre a segurança microbiológica das dietas cruas, seja no consultório, seja por colegas aqui no Instagram. Algo natural, considerando que criamos numa cultura “germofóbica” e vivemos um período de alerta pela presença de um certo vírus…


Apesar de ver a saúde de uma forma bem mais ampla, fundamentada principalmente nas capacidades do próprio indivíduo lidar com agressores físicos e biológicos, não desconsidero agentes patogênicos no processo de doença. Concordo com práticas para evitá-los, racionalmente.


Depois de boas discussões decorrentes de inúmeros artigos publicados sobre o assunto nos últimos três anos, mais recentemente, um artigo português (Finisterra et al, International Journal of Food Microbiology, 2021) e uma matéria especulativa publicada na revista Cães e Gatos Vet Food voltaram a agitar os nervos.


EXTRAPOLAÇÃO DE RESULTADOS


O questionamento de que cães, alimentados com carne crua, podem ter mais chances de transmitir patógenos aos humanos é justo, apesar disso ser um hábito evolutivo da espécie. Mas antes de usar um tom acusativo, profissionais e agências de notícias deveriam se perguntar:


1) Temos quadros comprovados de infecções em humanos ligados diretamente à prática?


2) Qual o importância disso diante do manejo e consumo de alimentos crus pelos próprios humanos, situação muito mais comum do que oferecer carne crua aos animais atualmente?


3) Como está contaminação ambiental em diferentes domicílios, considerando outras fontes de infecção?



CAUSA OU CONSEQUÊNCIA


A presença de bactérias multirresistentes nas fezes dos cães é uma péssima notícia. Mas isso é um problema em si ou consequência de algo muito maior?


A leitura que faço dessa descoberta é que devemos repensar a forma de criar animais de abate. O uso de antibióticos como “promotores de crescimento” em animais confinados sob condições de higiene questionáveis (cerne do problema) é uma prática que questiono há tempos. Existem previsões que, a curto prazo, boa parte desses medicamentos se tornaram totalmente ineficientes para uso na medicina.


CARNÍVOROS E SEU MICROBIOMA


Cães são animais que evoluíram comendo carne crua, ou mesmo em decomposição, potencialmente contaminada. Seu estômago ácido e intestino curto são características que os permitem consumir esses alimentos sem adoecer. Salmonella e clostrídeos, entre outras bactérias, são residentes normais do seu intestino, independentemente do tipo de dieta que consomem.


Não é coincidência que a oferta de uma dieta à base carne crua, com maior carga microbiológia e menor concentração de agentes agressores (AGEs, saponinas, resíduos de herbicidas, etc) tem impacto positivo na saúde intestinal dos carnívoros, contribuindo para maior diversidade do microbioma e melhores indicadores de digestibilidade protéica.


FALSA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA


Ao contrário do que notícias e estudos tendenciosos nos sugerem, bactérias patogênicas ao homem também são encontradas em alimentos ultraprocessados, e nos animais que se alimentam deles. Vários estudos sinalizam para isso.


Verdade seja dita, a maior parte dos recalls e relatos de contaminação, em animais e humanos, por bactérias e substâncias tóxicas, acontece com rações e agrados industrializados. Existem bactérias que produzem esporos termoresistentes. Além disso a contaminação após o processamento é muito comum e pouco combatida.


RESPONSABILIDADE E INFORMAÇÃO


Ao invés de instituir uma “política do medo”, profissionais, agências de notícias e entidades de classe ou reguladoras deveriam informar, para que os tutores tomem decisões conscientes, se auto-responsabilizem e reduzam os riscos para a saúde dos seus animais e família.


Não existe modalidade de dieta absolutamente segura. A prática de oferecer carne crua aos cães é um direito (ou mesmo dever) histórico, e não uma tendência passageira. Somos um grupo cada vez mais forte, e não aceitaremos ameaças infundadas!


BOAS PRÁTICAS


- Compra de carne em estabelecimentos confiáveis

- Controle da temperatura do alimento durante o transporte e descongelamento

- Higiene de utensílios, bancadas, vasilhame e ambiente onde o animal come

- Congelamento profilático: inativa cistos de alguns protozoários e verminoses (mas não bactérias e vírus)

- Descarte correto de excretas

- Cuidado redobrado em residências com pessoas imunossuprimidas


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