• Dr. Artur Vasconcelos

SOROLOGIAS DE ANTICORPOS, O que são e como utilizá-las



“A clínica é soberana”. Quem nunca escutou essa expressão?


Ela não significa que clínicos são superiores aos cirurgiões (e seu complexo de Deus!).


Na verdade, ela fala que a clínica do paciente é soberana aos exames apresentados, idéia que o adjetivo “complementares” já explica muito bem.


Exames laboratoriais, quando avaliados separadamente do exame clínico e da anamnese, para nada servem. Sozinhos, não passam de números, escores e nomes difíceis.


Antes de considerar um exame, o colega (e tutor) devem se perguntar:


1) Para que serve?

2) Vai mudar minha conduta?

3) Ele pode estar errado?


Com os exames sorológicos, isso se aplica perfeitamente. Solicitados fora de hora, ou para os pacientes errados, podem levar a tratamentos desnecessários e estresse emocional.


Nesse dia do veterinário, convido à construção de uma medicina mais racional, proativa e participativa, e bem menos intervencionista.



IMPORTANTE FERRAMENTA


Sorologias, ou titulação, de anticorpos são exames laboratoriais que complementam a avaliação clínica do pacientes. Elas aferem a presença de proteínas de defesa específicas (imunoglobulinas) contra um antígeno, geralmente parte de patógeno, substâncias por eles produzidas ou mesmo alimentos.


Essa mensuração pode ser qualitativa (positiva ou negativa) ou quantitativa (escore), atestando e caracterizando uma exposição a esse agressor. Por isso, o seu uso pede racionalidade e cautela. Nem sempre essa exposição significa infecção.


EXAMES DE TRIAGEM


Até pela sensibilidade e especificidade variáveis, geralmente são usados como exames de triagem quando o objetivo é o diagnóstico de uma doença. Resultados falso-positivos e falso-negativos podem acontecer. Ou seja, devem ser avaliados à luz do exame clínico, histórico e outras alterações laboratoriais.


Por exemplo, em infecções assintomáticas por leishmaniose visceral canina, podem ser necessários exames mais específicos (microscopia e biologia molecular) para esclarecer o diagnóstico e justificar tratamentos, muitas vezes prolongados, danosos e onerosos.


DOENÇAS ENDÊMICAS


Considerando alguns patógenos de distribuição endêmica, como a Babesiose e Erlichiose, o exames sorológicos tem pouca utilidade, especialmente se os exames forem qualitativos. Resultados positivos por exposição prévia são comuns mesmo em animais assintomáticos e não significam necessariamente a presença do microrganismo e/ou demanda por um tratamento.


Tem sido comum receber pacientes saudáveis que receberam ciclos de antibióticos de forma equivocada diante de uma triagem positiva aleatória. Diante disso, tenho contra-indicado a realização do exame nesse cenário, sob risco de interpretação incorreta e dano por intervenção desnecessária.


SOROLOGIAS VACINAIS


Outra utilidade da sorologia de anticorpos seria atestar a eficiência de uma imunização. Para as viroses de maior importância em cães (adenovirose, parvovirose e cinomose) o exame positivo é associado à boa resposta vacinal e proteção longeva, dispensando doses de reforço.


Para outras doenças, como a raiva, o exame positivo também significa proteção e permite o trânsito internacional de animais para alguns países. Mas ainda não substitui a vacinação na periodicidade prevista na bula ou legislação.


LIMITAÇÕES


Para algumas doenças, como a herpesvirose, calicivirose felina e outras viroses que demandam imunidade de mucosa, assim como leishmaniose canina e leptospirose, cuja imunidade celular é mais importante, o exame sorológico positivo não se relaciona à eficácia vacinal.


Logo, essas vacinas devem ser utilizadas na periodicidade sugerida em bula ou pelas diretrizes de entidades como a WSAVA, de acordo com o contexto do paciente e considerando que não são vacinas que protegem contra a infecção e estado de portador, mas poderiam abrandar sintomatologia clínica.


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