• Dr. Artur Vasconcelos

VETERINÁRIOSQUE NÃO MERECEM SUA CONFIANÇA



Assumindo a polêmica do artigo, deixo claro que tenho o maior respeito pelos meus colegas. Ao contrário do que acredita o senso comum, o veterinário não assinou um contrato de filantropia.


Como qualquer profissional, da área médica ou não, temos o direito de ser bem remunerados pelo nosso trabalho, e de promovê-lo de forma ética.


Mais do que uma sátira, esse é um convite à reflexão. É provável que todos nós, em algum momento, nos identificamos com um dos estereótipos apresentados, pelo menos um pouco. E sabe o motivo? Formamos nas mesmas universidades, e atuamos no mesmo mercado.


Para avançarmos e criarmos um modelo de medicina que realmente funciona, temos que assumir que a engrenagem está quebrada. E o conserto não vai ser simples, rápido ou barato. Todos estamos pagando essa conta, de alguma forma.


Não desconte na classe a desonestidade de poucos. A maioria de nós é muito competente e bem-intencionada. Mas saiba escolher quem vai te ajudar a cuidar do seu animal. Não existe veterinário perfeito - e nem tutor perfeito, viu?


O que temos é uma grande jornada de evolução pela frente. É melhor estarmos todos juntos, com um mesmo propósito.



O DONO DA VERDADE


Não existe veterinário que entende de tudo! O clínico geral então, “sabe um pouco de tudo, mas não sabe muito de nada”. Essa é a minha realidade, inclusive.


O sabichão acha que já aprendeu tudo nos três primeiros períodos da faculdade. Geralmente abriu a clínica ainda recém-formado, e o consultório é decorado com diplomas e certificados de pós-graduações.


Sempre usa termos difíceis, sempre tem diagnóstico, sempre tem a solução. Indicar o paciente para outro colega, porque o quadro clínico vai além das suas capacidades, não é uma possibilidade. O cliente nunca mais vai voltar, né?


O VENDEDOR


Você não marca suas consultas na drogaria ou mercearia. Com seu animal… seria diferente?


O veterinário vendedor é o mais fácil de identificar. A clínica não parece um centro médico, mas um supermercado. Promoções, anúncios de laboratórios e marcas de ração aparecem por todos os lados, inclusive no consultório.


Você sempre sai de lá com o que NÃO precisa. São receituários extensos, cheios de vermífugos e suplementos inúteis, vacinas e exames contra-indicados para contexto do seu animal. E claro, uma conta caprichada, que pode ser parcelada em 10x.



O APRESSADO


Só existe uma possibilidade para consultas baratinhas serem sustentáveis financeiramente, fazendo “volume”. Com os planos de saúde chegando na veterinária, e levando uma fatia generosa do lucro, pode ser o fim do atendimento cuidadoso. Não vamos cair no mesmo buraco que a medicina humana caiu!


O colega apressado faz uma consulta em 15 minutos. Não sai nem uma anamnese bem feita nesse tempo! Em menos de um minuto ele já interrompeu o cliente e o exame clínico do animal parece ser feito por telepatia. Auscultação, palpação… pra quê?



O INTERVENCIONISTA


Uma das maiores causas de óbito é a intervenção médica - e não confunda isso com erro médico. Infelizmente, a maioria dos clientes procura um veterinário exatamente para que ele faça uma faça alguma coisa. E sempre temos impactos positivos e negativos, em qualquer ação.


O intervencionista não acredita em efeitos colaterais. Nenhum paciente sai da clínica sem exames, cirurgias ou prescrições extensas. Ao contrário do vendedor, ele não é mal-intencionado, mas mal treinado. Isso porque na universidade se ensina uma reatividade ao processo de doença, e não a manutenção ou construção da saúde.


O INSEGURO


Justamente no atendimento de emergência, à noite, que esse veterinário entra em cena. Todos nós saímos da universidade com medo, isso é normal. Confiança e conhecimento vêm com a prática. Não há outro caminho. O veterinário inexperiente deveria trabalhar junto com aquele que já tem mais tempo na profissão.

O problema é que a maioria das clínicas coloca os recém-formados para dar o “plantão” sozinhos. Talvez porque somente eles estão dispostos a trabalhar num horário insalubre pelo pouco que recebem. O resultado a gente já sabe: erros médicos e internações desnecessárias.


O CIENTISTA


Destaque durante a graduação, foi direto para o mestrado e de lá para o doutorado. Depois que o pós-doutorado terminou, resolveu atender (ou dar dicas na internet) como “especialista”. Detalhe: nunca pisou no consultório.


Ele desconsidera seus vieses e não aprendeu que a ciência existe para servir à sociedade, e não ao seu ego. Mas ele sabe a verdade… a que está no “paper”, especialmente se foi seu grupo de pesquisa que publicou! Mas basta praticar para entender que o melhor estudo tem grandes chance de falhar na vida real.


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